Segunda edição ALGA VIVA, de Júlia Vita |

Segunda edição ALGA VIVA, de Júlia Vita

Segunda edição do livro de poemas Alga Viva, de Júlia Vita + lançamento e gravação de disco.

Project by: Júlia Vita de Carvalho
R$ 4.785,00
pledged
goal R$ 3.500,00

95 backers
backed this campaign

We did it \o/

Thanks to all backers for another successful project. Now, follow the news and comments on the project

BY

Júlia Vita de Carvalho

Júlia Vita de Carvalho

Artista e poeta formada em Artes pela Universidade Federal Fluminense.

R$ 20
Colaborador com gostinho de texto
14 backers
Você recebe um pdf com 3 poemas do livro, sendo no mínimo dois inéditos virtualmente, mais agradecimento nas redes sociais por se tornar um colaborador do projeto! Vai poder ler os poemas e ao mesmo tempo ajudar o livro todo!
R$ 25
Poema falado para você
3 backers
Aqui eu escolho algum poema do livro e leio em vídeo dedicando para você nos stories. + Você recebe um pdf com este e mais 3 poemas do livro, mais agradecimento nas redes sociais por se tornar um colaborador do projeto.
R$ 35
ALGA VIVA em promoção limitada!
10 backers
Você recebe o livro autografado e com dedicatória em mãos, pessoalmente ou pelos correios sem custos adicionais de frete. + pdf antecipado com 3 poemas + agradecimento nas redes sociais. Atenção: NESSA OPÇÃO O LIVRO ESTÁ EM PROMOÇÃO e são apenas as primeiras 10 unidades! CORRE!

unavailable.
R$ 40
ALGA VIVA
35 backers
Você recebe o livro autografado e com dedicatória em mãos ou em sua casa pelo correio sem custos adicionais de frete! + pdf com 3 poemas antecipados + agradecimento nas redes sociais.
R$ 55
ALGA VIVA versão com manuscrito
19 backers
Você leva o livro autografado e com dedicatória, acompanhado por 3 poemas que escolherei para você em versão manuscrita, escritos diretamente da minha mão + pdf antecipado com 3 poemas distintos dos manuscritos + agradecimento nas redes sociais.

10 available.
R$ 75
COMBO presente
3 backers
Você leva dois livros autografados e com dedicatória, com desconto no valor total + 2 pdfs com 3 poemas antecipados cada + agradecimento nas redes sociais.
R$ 95
ALGA VIVA Consultoria/análise de escrita
5 backers
Várias pessoas já me pediram ajuda e opiniões com seus textos. Aqui abro a oportunidade de além de poder apoiar ao projeto, levar um ALGA VIVA e ainda me dedicar ao seu trabalho junto com você - por um valor bem amigável de apoio mútuo entre escritores! O encontro poderá ser feito por skype ou presencialmente, de preferência em um final de semana.

4 available.

O livro

Em maio de 2019 lancei meu livro de estreia, Alga Viva, em eventos surpreendentes com grandes artistas e poetas próximos. Consegui realizar leituras públicas nos três eventos em que estive presente lançando o livro: na Biblioteca Mário de Andrade (SP), no Sebo Clepsidra (SP) e no Estúdio MATA em Niterói (RJ) - neste último, em minha terra natal, com uma grande leitura feita pelo grupo de poesia Laboriosa, e diversas sessões com músicos locais. 

Desde lá, quantas coisas mais. A surpresa de que um incidente ambiental atingiria mais de 800 locais aquáticos no país - quantas algas a menos. Mudei com o tempo um pouco dos meus trabalhos. Para falar sobre a feminil hora optei por uma perspectiva aquosa, que tem ritmo; da planta sem raiz, que dribla e nos ensina suas táticas; das coisas que se degradam e levam consigo a variedade do mundo - e dos pensamentos e gestos sobre o mundo.

Empenho esforços para que minha palavra de diversidade não seja convertida em uníssono de diversão. Talvez por isso substitua tal palavra por "vário", na tentativa de tecer imagens que penso importantes de serem visualizadas. Político o intuito desse livro, como deveria ser. E como é o ponto em comum entre todas escolhas de minhas obras, ainda que modifique a ótica da poética. Escolha presente também na decisão pelo trabalho do Gabriel Kolyniak e sua editora - com mais disposição de cuidar da Biblioteca Roberto Piva do que ao afã dos contentes -, que por feliz coincidência de líquido chama-se Córrego; e dos convidados para orelha e prefácio - Marcus Fabiano e Claudio Willer, respectivamente.

Pré-venda e lançamento 

Agora, no fim do ano, Alga Viva em tiragem se esgotando segue querendo ser lido - e as algas em processo de contínuo esgotamento seguem precisando serem vistas. Abro essa plataforma com possibilidade de pré-venda, já que muitas pessoas ainda me pedem exemplares que já não tenho. E além disso, mobilizando profundo desejo de realizar ao menos mais um evento tão rico quanto foram aqueles realizados até então - fugindo do acontecimento fugaz de mais uma mera noite de autógrafos: queremos ler os poemas e, principalmente, queremos que sejamos ouvidos. 

A segunda meta desse financiamento coletivo é para realização do lançamento no Rio de Janeiro, que também possa abrigar leituras com o Laboriosa e participações musicais. Mantemos o Laboriosa ativo desde 2017, com poetas e pesquisadores em intensa produção e estudo poético. Apesar de valorizarmos mais o recolhimento necessário para aprimorarmos as obras, ao invés dos festejos nas milhares de aparições públicas de nomeações, acreditamos ser o momento para publicizarmos as criações do coletivo. Em 2018 gravamos um disco com Arthus Fochi, músico e integrante do grupo, no qual inserimos poemas e interpretações textuais. O disco, feito sob pseudônimo (Arthus Fochi e os Botos da Guanabara), rendeu dois shows, sendo o último no Centro de Artes UFF, no início de 2019.

O disco

Amplificando essa voz, a última meta dessa plataforma consiste em manter contínuo e palpável um dos objetivos do grupo desde sua origem: trabalhar musicalmente a abordagem poética, com o rigor preciso apesar de um tempo de mídia ultra rápido - onde às letras parece com frequência restar o papel de segundo plano. Agora, especificamente, trabalhar musicalmente o Alga Viva em uma pequena produção de 4 a 5 faixas de poemas gravados. Com a proposta do Laboriosa, seus músicos integrantes e quais músicos e poetas a mais forem convenientes. Já estamos em gesto de realização disto, porém para gravação é preciso estrutura e razoabilidade de manutenção para os participantes. 

Para que tudo isso seja possível precisarei de leitores que mantenham conosco o desejo de fazer o livro rodar - e leitores novos, é claro. Sei que boa parte dos leitores que chegarão até aqui são também escritores ou pessoas em vias de escrita. Por isso, uma das recompensas por colaborar com o projeto é ter uma consultoria textual, explicada na parte aqui do lado direito da tela. Assim, além de permitir a venda direta do livro de forma antecipada (que permite consequentemente sua segunda edição), abro um local para também trabalharmos juntos conversando sobre escrita, indústria cultural e publicações, como praticamos há três anos. 

E... melhor parte: os primeiros dez livros estão em promoção, então aproveitem o momento e peguem o seu!

Aproveito para agradecer a recepção do livro até aqui, todos os presentes e participantes dos emocionantes lançamentos que fizemos esse ano - dos quais vem conteúdo de vídeo por aí! - e a quem tanto colaborou e colaborará para que  Alga Viva seja físico. 

Agora é isso, o mês virou, vale presente de final de ano pra quem quer presentear a si mesmo, amigos e família: aqui tem! "Valor do investimento" é aquela expressão que tem sido tão usada como adereço de venda, não é mesmo? Há casos e casos, mas em livro costuma valer. Que façamos valer para a vida a tarefa de ir às ruas - empenhada na eleição de 2019 - com livros nas mãos!  

Três poemas

Em: 13/01/2020 15:26

Verbo rubro

Minha avó do batom ensinou-me o gesto

E agora eu, quando o pego,

faço – quando empunho o batom, o bato

Assim tenho a porrada do vermelho e não

o vermelho que passa

Ensinou-me o mesmo do blush:

não a passagem, a batida

A maquiagem não é para o vão defeito

mas a cor

no rosto que se violentou e foi violado –

e por ela mesma faz tal fato diminuto

– a cor, a cor

do momento

E basto.

 

§

 

Gosto muito do cheiro dela, molhada.

E do visgo a depender do período

e do musgo

a depender do zinco

 

Por abertos cílios e ganas púrpuras

vemo-nos,

as duas, pela líquida raiz maldita

que é alga e carmina o germe

 

Azul, podre e amarelo

o sol século brônzeo grampeando

artilharia

menos antiga que esbelta

 

E com água Imbuhyda desta

Ao ponto de criar saliva

quando ao longo, oito redemoinhos – entradas

expulsivas – na beira

A depender do lapso, lavada

e cheia, Guanabara altiva – viva, viva

 

§

 

Não é espelho o que se vê

para dentro (lagoa)

Nem só água o marco do zelo

 

A brânquia, o caranguejo

a garça na proa do braço estanca

o voo fortuito batendo asas,

polvilhando sais, removendo

o lodo das bárbulas salobras

 

Vulnerável ao musgo,

o tempo afinal perdura

Em seu pecado nativo respira

assembleia, sofás e utensílios

sem vida elétrica cujos fios de bronze

afiam bocas carcadas na carniça

 

Um crustáceo escala o vergalhão

fincado no charco

Uma menina ancorada

busca a ponte – ante a ferrugem,

o lado marinho

e pescadores subindo suas linhas

 

Macio, o nylon na carretilha

compreende a geografia do chão

traçando a diferença de areia

na rede emalhada: a graça do pano

quando pouco esse coar saneia

 

Risco do banho, tragédia da falta:

a sede resseca, porém mais bela

a menina volta filmando

em panorama.


ORELHA ALGA VIVA

Em: 12/01/2020 19:28

Disponibilizo o texto de orelha do Alga Viva - meu livro de poemas que está com pré-venda online no benfeitoria - escrita pelo poeta e professor Marcus Fabiano. O prefácio ficou com o Claudio Willer. Faltam 3 dias e o financiamento coletivo custeará sua segunda edição e um lançamento na cidade do Rio. Para o lançamento estamos em 81% da meta e a proposta pode ser lida na descrição do projeto. Segue o prometido:
-
Quem diz vegetal quase sempre pensa terra, embora não no caso da alga, e menos ainda daquela que se saiba viva. Submersa e movente, sua respiração alude à ancestralidade e ao ambiente aquoso do aconchego amniótico. De classificação ambígua, a alga sequer tem seiva, mas sua figura elege certo desvio capaz de ressituar a percepção geral da planta em paragens até mais originárias que o próprio chão, pois se a vida provém da água, dela também procede a substância fluida do poema: o caldo primordial da experiência linguística. Daí que a primeira sensação de ser colhido pelo visgo deste livro acione memórias do sobressalto provocado pelo sargaço que de repente nos alcança em um banho de mar.

Qualquer poeta, de novatos a eminentes, tem lá seus textos medianos ou ruins, e com frequência os acumula em profusão. Isso é da própria natureza de quem tateia sua assinatura autoral em pleno tumulto da garrulice, especialmente agora, quando falsos democratismos proporcionam facilidades no acesso ao sonho do livro próprio, com direito a celebrações midiáticas e efêmeros êxitos entre “contatinhos”. A despeito disso, e apesar de pertencer ao recorte geracional de uma epidemia de poetas anódinos, Júlia Vita surpreende nas suas melhores realizações desta coletânea inaugural. Dela se destacam os poemas difíceis, justo aqueles que reclamam paciente pausa analítica para se acompanhar maranhosas tessituras nas quais uma sintaxe fraturada envolve objetos, imagens e juízos, amalgamando a cristalina enunciação do verbo à turbidez elusiva de um armazém de afetos no qual tampouco faltam, além do lírico e do erótico, irônicas revisões dos feminismos de pacotilha ou críticas às imposturas patrocinadas pela clientela da propaganda cultural.

Alga Viva seguramente carrega as marcas de sua precocidade. Mesmo assim, Júlia Vita esmera-se em restituir à escritura poética sua condição irrenunciável de uma alta singularidade distinguível. E granjear voz própria em meio ao coro gregário afinado pela cantilena dos ativismos identitários, definitivamente não é coisa que mereça passar desapercebida, sobretudo em nossa nebulosa conjuntura. À diferença das velhas novidades serializadas pela fabricação da consagração, seguindo García Lorca, de Júlia Vita pode-se dizer: ¡tiene duende!

Marcus Fabiano Gonçalves
Professor da UFF


Dois poemas

Em: 03/12/2019 15:38

Uma alga viva:

alguém mete as mãos

e ela foge

 

ou ela gruda

e sentem

nojo

 

Como alga viva, mãe?

primeiro desista da palavra

força

 

logo depois da resistência.

 

Um corpo resistente

é destruído fácil

por quebradiço

 

Logo depois exercite o drible:

algo esbarra, se desvie

 

ou abra buraco

para que passe

 

Seja peixe, porém

não morda

iscas.

 

§

 

Depois de todas as avós

morrerem

os avôs olham para o mar

e dizem

nossa, o mar ainda está violenta

e riem ajeitando o erro

antes de outro som de sim,

violeta!

 

Uma criança sem blusa

corre traçando círculos

ao som de um pai que diz

te amo com raiva

e mergulha na ira

e uma criança ri muito

ajeitando os erros

construindo círculos

 

Um barco pesqueiro com

quatro cabeças passa por trás

o amor com raiva supera

a água e a cabeça vira

 

Em cima assistindo

ao mar violenta com neblina

por trás da raiva do amor,

do avô e do círculo

treze caravelas,

uma imagem de época


O livro

Em maio de 2019 lancei meu livro de estreia, Alga Viva, em eventos surpreendentes com grandes artistas e poetas próximos. Consegui realizar leituras públicas nos três eventos em que estive presente lançando o livro: na Biblioteca Mário de Andrade (SP), no Sebo Clepsidra (SP) e no Estúdio MATA em Niterói (RJ) - neste último, em minha terra natal, com uma grande leitura feita pelo grupo de poesia Laboriosa, e diversas sessões com músicos locais. 

Desde lá, quantas coisas mais. A surpresa de que um incidente ambiental atingiria mais de 800 locais aquáticos no país - quantas algas a menos. Mudei com o tempo um pouco dos meus trabalhos. Para falar sobre a feminil hora optei por uma perspectiva aquosa, que tem ritmo; da planta sem raiz, que dribla e nos ensina suas táticas; das coisas que se degradam e levam consigo a variedade do mundo - e dos pensamentos e gestos sobre o mundo.

Empenho esforços para que minha palavra de diversidade não seja convertida em uníssono de diversão. Talvez por isso substitua tal palavra por "vário", na tentativa de tecer imagens que penso importantes de serem visualizadas. Político o intuito desse livro, como deveria ser. E como é o ponto em comum entre todas escolhas de minhas obras, ainda que modifique a ótica da poética. Escolha presente também na decisão pelo trabalho do Gabriel Kolyniak e sua editora - com mais disposição de cuidar da Biblioteca Roberto Piva do que ao afã dos contentes -, que por feliz coincidência de líquido chama-se Córrego; e dos convidados para orelha e prefácio - Marcus Fabiano e Claudio Willer, respectivamente.

Pré-venda e lançamento 

Agora, no fim do ano, Alga Viva em tiragem se esgotando segue querendo ser lido - e as algas em processo de contínuo esgotamento seguem precisando serem vistas. Abro essa plataforma com possibilidade de pré-venda, já que muitas pessoas ainda me pedem exemplares que já não tenho. E além disso, mobilizando profundo desejo de realizar ao menos mais um evento tão rico quanto foram aqueles realizados até então - fugindo do acontecimento fugaz de mais uma mera noite de autógrafos: queremos ler os poemas e, principalmente, queremos que sejamos ouvidos. 

A segunda meta desse financiamento coletivo é para realização do lançamento no Rio de Janeiro, que também possa abrigar leituras com o Laboriosa e participações musicais. Mantemos o Laboriosa ativo desde 2017, com poetas e pesquisadores em intensa produção e estudo poético. Apesar de valorizarmos mais o recolhimento necessário para aprimorarmos as obras, ao invés dos festejos nas milhares de aparições públicas de nomeações, acreditamos ser o momento para publicizarmos as criações do coletivo. Em 2018 gravamos um disco com Arthus Fochi, músico e integrante do grupo, no qual inserimos poemas e interpretações textuais. O disco, feito sob pseudônimo (Arthus Fochi e os Botos da Guanabara), rendeu dois shows, sendo o último no Centro de Artes UFF, no início de 2019.

O disco

Amplificando essa voz, a última meta dessa plataforma consiste em manter contínuo e palpável um dos objetivos do grupo desde sua origem: trabalhar musicalmente a abordagem poética, com o rigor preciso apesar de um tempo de mídia ultra rápido - onde às letras parece com frequência restar o papel de segundo plano. Agora, especificamente, trabalhar musicalmente o Alga Viva em uma pequena produção de 4 a 5 faixas de poemas gravados. Com a proposta do Laboriosa, seus músicos integrantes e quais músicos e poetas a mais forem convenientes. Já estamos em gesto de realização disto, porém para gravação é preciso estrutura e razoabilidade de manutenção para os participantes. 

Para que tudo isso seja possível precisarei de leitores que mantenham conosco o desejo de fazer o livro rodar - e leitores novos, é claro. Sei que boa parte dos leitores que chegarão até aqui são também escritores ou pessoas em vias de escrita. Por isso, uma das recompensas por colaborar com o projeto é ter uma consultoria textual, explicada na parte aqui do lado direito da tela. Assim, além de permitir a venda direta do livro de forma antecipada (que permite consequentemente sua segunda edição), abro um local para também trabalharmos juntos conversando sobre escrita, indústria cultural e publicações, como praticamos há três anos. 

E... melhor parte: os primeiros dez livros estão em promoção, então aproveitem o momento e peguem o seu!

Aproveito para agradecer a recepção do livro até aqui, todos os presentes e participantes dos emocionantes lançamentos que fizemos esse ano - dos quais vem conteúdo de vídeo por aí! - e a quem tanto colaborou e colaborará para que  Alga Viva seja físico. 

Agora é isso, o mês virou, vale presente de final de ano pra quem quer presentear a si mesmo, amigos e família: aqui tem! "Valor do investimento" é aquela expressão que tem sido tão usada como adereço de venda, não é mesmo? Há casos e casos, mas em livro costuma valer. Que façamos valer para a vida a tarefa de ir às ruas - empenhada na eleição de 2019 - com livros nas mãos!  

Três poemas

Em: 13/01/2020 15:26

Verbo rubro

Minha avó do batom ensinou-me o gesto

E agora eu, quando o pego,

faço – quando empunho o batom, o bato

Assim tenho a porrada do vermelho e não

o vermelho que passa

Ensinou-me o mesmo do blush:

não a passagem, a batida

A maquiagem não é para o vão defeito

mas a cor

no rosto que se violentou e foi violado –

e por ela mesma faz tal fato diminuto

– a cor, a cor

do momento

E basto.

 

§

 

Gosto muito do cheiro dela, molhada.

E do visgo a depender do período

e do musgo

a depender do zinco

 

Por abertos cílios e ganas púrpuras

vemo-nos,

as duas, pela líquida raiz maldita

que é alga e carmina o germe

 

Azul, podre e amarelo

o sol século brônzeo grampeando

artilharia

menos antiga que esbelta

 

E com água Imbuhyda desta

Ao ponto de criar saliva

quando ao longo, oito redemoinhos – entradas

expulsivas – na beira

A depender do lapso, lavada

e cheia, Guanabara altiva – viva, viva

 

§

 

Não é espelho o que se vê

para dentro (lagoa)

Nem só água o marco do zelo

 

A brânquia, o caranguejo

a garça na proa do braço estanca

o voo fortuito batendo asas,

polvilhando sais, removendo

o lodo das bárbulas salobras

 

Vulnerável ao musgo,

o tempo afinal perdura

Em seu pecado nativo respira

assembleia, sofás e utensílios

sem vida elétrica cujos fios de bronze

afiam bocas carcadas na carniça

 

Um crustáceo escala o vergalhão

fincado no charco

Uma menina ancorada

busca a ponte – ante a ferrugem,

o lado marinho

e pescadores subindo suas linhas

 

Macio, o nylon na carretilha

compreende a geografia do chão

traçando a diferença de areia

na rede emalhada: a graça do pano

quando pouco esse coar saneia

 

Risco do banho, tragédia da falta:

a sede resseca, porém mais bela

a menina volta filmando

em panorama.


ORELHA ALGA VIVA

Em: 12/01/2020 19:28

Disponibilizo o texto de orelha do Alga Viva - meu livro de poemas que está com pré-venda online no benfeitoria - escrita pelo poeta e professor Marcus Fabiano. O prefácio ficou com o Claudio Willer. Faltam 3 dias e o financiamento coletivo custeará sua segunda edição e um lançamento na cidade do Rio. Para o lançamento estamos em 81% da meta e a proposta pode ser lida na descrição do projeto. Segue o prometido:
-
Quem diz vegetal quase sempre pensa terra, embora não no caso da alga, e menos ainda daquela que se saiba viva. Submersa e movente, sua respiração alude à ancestralidade e ao ambiente aquoso do aconchego amniótico. De classificação ambígua, a alga sequer tem seiva, mas sua figura elege certo desvio capaz de ressituar a percepção geral da planta em paragens até mais originárias que o próprio chão, pois se a vida provém da água, dela também procede a substância fluida do poema: o caldo primordial da experiência linguística. Daí que a primeira sensação de ser colhido pelo visgo deste livro acione memórias do sobressalto provocado pelo sargaço que de repente nos alcança em um banho de mar.

Qualquer poeta, de novatos a eminentes, tem lá seus textos medianos ou ruins, e com frequência os acumula em profusão. Isso é da própria natureza de quem tateia sua assinatura autoral em pleno tumulto da garrulice, especialmente agora, quando falsos democratismos proporcionam facilidades no acesso ao sonho do livro próprio, com direito a celebrações midiáticas e efêmeros êxitos entre “contatinhos”. A despeito disso, e apesar de pertencer ao recorte geracional de uma epidemia de poetas anódinos, Júlia Vita surpreende nas suas melhores realizações desta coletânea inaugural. Dela se destacam os poemas difíceis, justo aqueles que reclamam paciente pausa analítica para se acompanhar maranhosas tessituras nas quais uma sintaxe fraturada envolve objetos, imagens e juízos, amalgamando a cristalina enunciação do verbo à turbidez elusiva de um armazém de afetos no qual tampouco faltam, além do lírico e do erótico, irônicas revisões dos feminismos de pacotilha ou críticas às imposturas patrocinadas pela clientela da propaganda cultural.

Alga Viva seguramente carrega as marcas de sua precocidade. Mesmo assim, Júlia Vita esmera-se em restituir à escritura poética sua condição irrenunciável de uma alta singularidade distinguível. E granjear voz própria em meio ao coro gregário afinado pela cantilena dos ativismos identitários, definitivamente não é coisa que mereça passar desapercebida, sobretudo em nossa nebulosa conjuntura. À diferença das velhas novidades serializadas pela fabricação da consagração, seguindo García Lorca, de Júlia Vita pode-se dizer: ¡tiene duende!

Marcus Fabiano Gonçalves
Professor da UFF


Dois poemas

Em: 03/12/2019 15:38

Uma alga viva:

alguém mete as mãos

e ela foge

 

ou ela gruda

e sentem

nojo

 

Como alga viva, mãe?

primeiro desista da palavra

força

 

logo depois da resistência.

 

Um corpo resistente

é destruído fácil

por quebradiço

 

Logo depois exercite o drible:

algo esbarra, se desvie

 

ou abra buraco

para que passe

 

Seja peixe, porém

não morda

iscas.

 

§

 

Depois de todas as avós

morrerem

os avôs olham para o mar

e dizem

nossa, o mar ainda está violenta

e riem ajeitando o erro

antes de outro som de sim,

violeta!

 

Uma criança sem blusa

corre traçando círculos

ao som de um pai que diz

te amo com raiva

e mergulha na ira

e uma criança ri muito

ajeitando os erros

construindo círculos

 

Um barco pesqueiro com

quatro cabeças passa por trás

o amor com raiva supera

a água e a cabeça vira

 

Em cima assistindo

ao mar violenta com neblina

por trás da raiva do amor,

do avô e do círculo

treze caravelas,

uma imagem de época