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O Livro
Astronauta de Marte é livro classificado no Prêmio Conceição Evaristo de Literatura Afrofuturista.

Ayana é uma jovem cientista afrodescendente e de classe média, que trabalha para a Administração Pública Federal e, apesar de sua capacidade intelectual singular, desempenha suas funções realizando experimentos rotineiros, sem grande relevância.
Diante da iminência do alagamento de cidades turísticas mundialmente conhecidas, como Veneza e Nova Iorque, o que poderá acarretar tragédias sem precedentes, Ayana resolve aprofundar os estudos a respeito do tema e filia-se a uma corrente minoritária de pensamento, a qual defende que a solução para prevenir esse tipo de desastre estaria presente no solo de Marte.
Mesmo sofrendo críticas, a moça resolve seguir em frente na defesa de suas convicções, e após estar em solo americano em razão de uma reunião, é escolhida para integrar a missão que irá ao planeta vermelho em busca da única solução aparente para evitar a morte de milhares de pessoas. Será ela bem-sucedida nesse mister? Embarque com Ayana em uma expedição tão insólita quanto ambiciosa e, ao mesmo tempo, extremamente destemida e confiante.
A Autora
Ana Cristina Ribeiro Alves (Ana Cristina Autora) é Oficial do Ministério Público do Estado
de Minas Gerais desde o ano de 2005. É Especialista em Direito Público e em Direito Privado, pela UCAM, com experiência docente em Direito Administrativo.
Autora de artigos publicados na revista MPMG Jurídico, edições 6 e 9, do livro "Eu confiei nele: um perverso golpe virtual do amor e a superação impulsionada por um sonho audaz", traduzido para o inglês com o título "I Trusted Him”, do ebook "A Rainha e a Big Apple", do conto “Eu coloco todo mundo doido, mas eu consigo”.

Alguns Trechos do Livro
1 - (...)
“O que você vai ser quando crescer?”, perguntou Ayana, e a resposta não poderia ser mais óbvia, considerando a idade de Camila: uma menina de dez anos, cursando a então quarta série do primeiro grau no ano de 1987, queria ser professora. Quase todas as meninas de classe média queriam ser professoras, especialmente em cidades do interior. “E você, o que quer ser?”, retrucou Camila à sua melhor amiga. “Ah, eu quero ser astronauta ou cientista!”, disse Ayana, com o peito um pouco estufado, um sorriso largo e um olhar absolutamente confiante.
Ayana e Camila eram inseparáveis: moravam na mesma rua, estudavam na mesma escola, brincavam juntas quase todos os dias e, apesar de terem outras colegas, intitulavam-se melhores amigas. Compartilhavam a mesa sala de aula desde a primeira série e sempre se destacavam como as melhores alunas da classe.
Naquela época, as escolas públicas eram muito boas e recebiam matrículas de pessoas de várias classes sociais; as crianças conviviam pacificamente e não demoravam a se entrosar, apesar da diferença de qualidade entre os materiais escolares e das merendas consumidas nos intervalos. Tudo era uma alegria só.
Camila, filha de um gerente de banco, um dos cargos de maior destaque da época, ostentava lindos e compridos cabelos loiros, cuja beleza era realçada por grandes olhos azuis; já Ayana orgulhava-se de seus pequenos cachos castanho-escuros que, apesar de nunca virem uma tesoura, jamais conseguiam tocar os ombros pretos. Mas o fato de as madeixas serem curtas não a incomodava; afinal, a mãe Josefa, uma das melhores quitandeiras da cidade, dizia que cabelos longos não eram convenientes em uma casa cuja principal fonte de renda era o cozinhar.
Os dias da infância seguiram suaves e alegres rumo à adolescência, e foi a época em que começaram as primeiras rupturas: a turma escolar que estava unida desde a alfabetização apartou-se e as diferenças sociais começaram a ficar evidentes. Os adolescentes cujos pais possuíam uma condição financeira mais confortável migraram para escolas particulares, algumas em outras cidades.
(...)
2 - (...)
A moça estava na atual posição por ser corajosa e destemida; ninguém a obrigara e nem mesmo suplicara para que ela se voluntariasse a algo tão bizarro; aliás, a bizarrice tinha saído de sua própria cabeça, após incontáveis horas de pesquisas que não levaram a nada; o trabalho duro e sem resultados práticos tinham culminado com consciente “enviem-me”. Se existisse alguma solução, o elemento ativo (ou combinação) não seria achado na superfície terrestre, nas condições certas e no tempo exíguo de que os governantes dispunham; buscá-los “nas estrelas” representava a única saída visível.
Camila há muito não tinha notícias da amiga e estava, há algum tempo, ansiosa para falar com ela, especialmente para dar-lhe a notícia de que se casaria em breve e, caso possível, queria que Ayana fosse sua madrinha. Ao que tudo indicava, a ida da cientista à América do Norte não seria demorada, mas a estada foi prolongando-se e a comunicação entre elas tinha cessado por completo. Não por descaso ou eventual animosidade, e sim pelo fato de Ayana cumprir um exaustivo cronograma diário de atividades, o qual não admitia atrasos: se uma tarefa fosse iniciada um minuto mais tarde que o determinado, geraria impactos nas responsabilidades subsequentes. E após tudo concluído, o cansaço físico e mental era inevitável.
Ayana sempre se lembrava da amiga de infância e imaginava como ela teria reagido aos nefastos últimos acontecimentos; estaria ela ainda sem crer na gravidade da situação? Teria admitido o alto grau de improbabilidade de as coisas se resolverem por si sós? Ainda duvidava da capacidade de Ayana, conforme havia sugerido com os seus comentários? Era irrelevante para a futura astronauta saber ao certo as convicções de Camila, não obstante a segurança dela e a de sua família terem especial importância, por sempre serem tão próximas.
Surpreendentemente, Camila não estava tão preocupada assim, pois estava finalizando os preparativos de seu casamento, cuja lua de mel ocorreria em Honolulu, no Havaí, apesar de ausente o apoio da família. Fazer uma viagem para um arquipélago tão distante, em meio à situação de alerta em que o mundo então vivia, figurava como a ideia vinda de um louco ou, na melhor das hipóteses, de uma pessoa irresponsável.
Mas a médica tinha uma personalidade tão otimista que beirava à leviandade, e quando tocavam no assunto, ela dizia que “Deus é mais” e que as tragédias que tinham que acontecer já ocorreram, além de argumentar que as inundações envolviam as águas do Atlântico e os respectivos mares, não o Pacífico. Camila não queria renunciar ao seu sonho de lua de mel e não permitiria que a “negatividade” das pessoas frustrassem os seus planos. Seu noivo também não se preocupava e aliou-se à futura esposa em sonhar acordado com os maravilhosos dias à frente.
(...)
3 - (...)
Em homenagem à defesa apaixonada que fizera sobre a possibilidade da missão, os colegas permitiram que a moça fosse a primeira a pisar no solo do planeta vermelho. Algumas pessoas poderiam pensar que isso seria uma “faca de dois gumes”, já que ninguém nunca tinha pisado naquele chão, e caso o primeiro passo fosse mortal, a moça poderia estar sendo usada como cobaia.
Destemida, Ayana não pensou dessa forma e seria sim a primeira a descer da espaçonave; a pioneira de uma missão que, independentemente dos resultados, entraria para os livros de história. Seu feito ficaria para a posteridade e a bravura com que encarara a missão a elevaria ao status de heroína, mesmo que o resultado esperado não fosse obtido.
Foram os segundos mais longos da vida da cientista: observar a porta abrindo-se lentamente e, à frente, o chão avermelhado alongando-se até onde a vista alcançava, enchia-lhe os olhos, em uma mistura de sensações inexplicáveis; lágrimas banhavam o sorriso moldado no queixo trêmulo.
Era como se o próprio universo infinito estivesse ao alcance daquelas mãos corajosas.
Ayana finalmente colocou os pés em Marte; depois do longo treinamento e do esforço abnegado, ela estava prestes a coletar as amostras necessárias para produzir, na Terra, a matéria necessária à contenção efetiva das águas que insistiam no objetivo de varrer do mapa, velhas e grandes cidades.
Ressabiados, os demais astronautas seguiram a destemida moça, e um a um foram pisando o solo desconhecido. Por alguns instantes, eles entreolharam-se e olharam em volta, para baixo, para cima e para frente. O solo, apesar de firme, era um pouco arenoso. Rochas das mais variadas formas completavam o quadro. Não se ouviam nenhum ruído, por menor que fosse.
Rapidamente a fase de contemplação foi substituída pelo início da coleta de amostras do solo, tanto da parte arenosa quanto das pedras. Amostras foram retiradas em diversos pontos, conforme a coloração tornava-se mais clara ou mais escura. O grupo entendeu que o elemento correto poderia estar em qualquer lugar, e não podiam se dar ao luxo de desperdiçar tanto tempo e dinheiro retornando para casa sem portar a amostra correta.
Com isso em mente, andaram pelo tempo e distância que o tipo de atmosfera e as
vestimentas permitiam, e mantendo sempre em mente a precaução de não se afastar muito da espaçonave.
(...)
O Toma Aí Um Poema

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