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conheça um poema da obra:

Gabriela decide abolir o azul.
Ela o arranca das coisas como se dilacerasse um animal.
Ela dilacera um animal.
Ela toma os peixes em suas mãos
e os dilacera como uma cor.
As mãos se lentificam
como um animal sonambúlico.
E o aquário inundou na progressão de uma violência surda.
O mundo dos objetos só conhece jogos de força,
mesmo a colisão de estrelas é um ato inocente.
Apenas nossas mãos frágeis convertem a força
em ato bárbaro,
nossas mãos com nervuras de estrela
ensinam às constelações
que a força
e a força
e o primeiro fratricídio de supernovas.
E inundou tudo e tudo e o céu estrelado à luz do dia.
O arredor inundado tem um aspecto prismático,
todo acontecimento visual se decompõe em tiras de papel
e em meio a elas Gabriela vê
os grilhões de aquarela de Deus-cor
Suas mãos feitas de cores anônimas
indicam com os gestos a cor
como fundamento criador das coisas e estados de coisas.
E inundou tudo, a memória de Gabriela
o futuro de Gabriela tudo.
Gabriela já não podia mais se lembrar
dos tempos imemoriais
em que os homens tragavam oxigênio
a plenos pulmões.
Sim, aqueles tempos de civilizações enterradas,
o gesto estranho de arfar.
Os peixes, sim, os peixes daquele aquário insignificante
conheceram a violência.
Uma violência com força zero,
temperatura zero.
Seria Gabriela inocente,
como o gesto explosivo das estrelas?
Quando criança,
ela perguntava insistentemente se os peixes mudavam de cor.
Seria inocente?
Se ela desconhecesse a cor,
seria inocente?
Se a cor lhe soasse apenas como uma palavra estrangeira,
seria absolvida por abolir o azul?
Não, não seria.
Sim, Gabriela está condenada ao visível, apesar de tudo.
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sobre o autor:

céu incolor sob quaisquer circunstâncias é o primeiro livro do autor, escrito no decorrer de quatro anos. Duas versões foram escritas em paralelo, uma em verso e outra em prosa. A presente versão está em verso. O autor nasceu no Rio de Janeiro e atualmente reside na mesma cidade. É formado em psicologia (UFRJ), e atua como psicólogo clínico.
Publicou um poema na antologia Poesia Agora: Inverno 2020, da Editora Trevo; também publicou um conto e um poema nas respectivas edições de 2021 do Prêmio Off Flip, sendo seu conto um dos finalistas do concurso.
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previsão orçamentária:
-serviços editoriais:
[estabelecimento do texto, revisão, projeto gráfico,
diagramação, design de capa, registro, fechamento e correções,
elaboração de artes de divulgação]: 1000
-impressão de 50 exemplares: 750
-despesas com frete: 250
-taxas à plataforma Benfeitoria: 200
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