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O Livro
Travessia é composto de 52 poemas escritos entre 2015 e 2022. O livro é construído através do conceito que dá título à obra, travessia. Há nele a presença do caminho e a narração de um deslocamento. Por vezes, são deslocamentos externos, pela cidade, pelas estradas ou pelas praias; por vezes, são deslocamentos internos, pelos sentimentos de melancolia, desespero e resignação. Uma das melhores coisas do livro é a força das imagens poéticas. Os poemas estão, em sua maioria, dispostos em versos livres.
O livro é dividido em três partes: na primeira, há um predomínio de temas clássicos e é estabelecido o confronto do eu lírico com o seu passado; na segunda, a linguagem se moderniza e o eu lírico demonstra as crises do seu presente; na terceira parte, o eu lírico apresenta suas resoluções.
Através de cada texto desta obra, é possível notar as principais aflições do seu âmago pulando do peito do autor, a promover a sua “Travessia”, que percorre desde as idiossincrasias vistas nos sujeitos amados e admirados até a dureza da maturidade e a efemeridade das horas.
O livro conta com apresentação de Matheus Peleteiro e posfácio de Douglas Sacramento.
O Autor
Alexandre Bartilotti nasceu em 1998, em Salvador. É licenciado em História e atua como professor na educação básica. Atualmente, faz mestrado em História, pesquisando história da literatura.
Sua estreia na ficção ocorreu em 2019, quando seus poemas “Fantasia” e “Silêncio” o tornaram finalista em concursos para jovens poetas. Em 2020, ele publicou sua primeira prosa, a novela “A Sombra”.

Alguns Poemas do Livro
Convite
A cidade tropical abre olhos cinzentos sobre os mortais,
Da praia ressoa o ingênuo canto do mar espumante,
Enquanto ondas espectrais espantam os pássaros
E ecos tortuosos obrigam as palmeiras felizes a uma reverência.
A grandeza ruge em polifônica sinfonia de afetos e
Se pinta em tons rubros na guerra dos dias,
Pois a grandeza luta, sangra e morre, como a feroz
Atlântida restaurada, que em sua derrota homenageia
O vencedor com o sangue espumante de si,
Pois tudo que é grande sofre, ri e chora, apaixonado pelo inimigo.
E tu, garoto recostado na elevação de areia, que contemplas
Com a cabeça baixa, que mensagens de dentro de ti
Esta paisagem faz chegar desde o horizonte misterioso
Até as espumas das ondas quebradas? Os cavaleiros não te amaram,
Não te nomearam, pois és jovem, belo e forte demais para eles,
Velhos e burocratas do hoje! Você, querido, ainda nascerá
Amanhã, ainda haverá de ser devorado em seu próprio sofrimento.
Mas muda a vista e olha as janelas dos apartamentos,
Olha os elevadores lotados. Estão perdidos em seus caminhos retos,
E irão voltar ao passado do que nunca foste, porquanto tu
Já és o futuro do que serão. Dá-me a mão e vem?
“Não” é a única palavra que conhecem, mas tu
É dos que se calam para saborear todas as delícias e desgraças.
Em tuas danças mais cedo vi brilhar a floresta encantada,
Aquela que aponta o grande caminho. Vamos, levanta-te.
Sou eu quem procuras? Segue-me pela areia. Se for preciso afundar,
Que meu convite nunca se apague de tua memória!
Olha a tempestade que vem. Vês acima de ti a medusa elétrica,
Escutas a linguagem magnética de seus raios?
Além de teu soluço, ouve os deuses te anunciarem?
Além de tuas lágrimas, consegue ver os deuses te desenharem?
Acredita, só descendo à dor se ergue além do céu. Vem!
Ó querido jovem, agora que ti levantas,
Olha o céu em guerra e manto,
Quando a tempestade passar, o caminho estará livre.
Aceitarás o convite? Como um cometa de cores indescritíveis,
Romperás tua casca, qual furiosa Fênix multicor
A lançar-se da própria pira ao incêndio do firmamento?
“Ó não”, eles dirão, e tentarão sufocar tuas chamas,
Mas, apaixonados, deles suas chamas já serão parte,
E, surpresos, suspirarão plenos, purificados em sua pira.
Que meu convite nunca se apague de tua memória,
Que teu sangue se pinte dos tons rubros de minha motivação!
Poeira
As coisas mais valiosas
Não têm utilidade alguma,
Como a poeira
Que dança sobre
Os móveis e os dedos.
Uma tarde eu a vi
Rodopiando pela janela,
Reluzindo pelo cone de sol
Como mil diamantes voadores
E vi esferas azuis e roxas e verdes,
Como se fadas e seres míticos fizessem
Um festival de danças amistosas
Vindos de outra dimensão,
Perante meu rosto deprimido
De vivente deste mundo.
No início, tudo era poeira,
E ela dançou, alegre, sobre
Os vulcões e os dinossauros,
As baleias e as borboletas.
Lembro-me, ontem mesmo,
Ela dançou sobre mim e sobre você
E tocou, gentil, nossos rostos.
Teus brincos de diamante
Saudaram-na, prevendo o futuro,
Pois a única certeza que há
É a de virar pó a brilhar
Numa tarde qualquer,
Rodopiando pela janela,
Reluzindo pelo cone do sol.
As coisas mais valiosas
Não têm utilidade alguma.
Celebremos a poeira
De que são feitos
Nossos móveis e dedos!
Melancolia
Ando devagar pela casa escura,
Escutando o festival do jardim:
Vejo meus cães se beijarem entre mordidas,
Vejo mosquitos dançando o balé do vento,
Sapos coaxam uma ópera indescritível.
E eu aqui, parada, toco em meu peito dolorido.
Poderia com um simples acender de luzes
Destruir-lhes a harmonia do espetáculo,
Mas continuo parada, sentada nesta velha cadeira,
A contemplar-lhes o gracioso movimento do caos.
Se meus filhos acordassem, que lhes poderia dizer?
Sinto saudades de teus carinhos e canções, mãe.
Escolhemos morrer toda noite acima do macio caixão
Da esperança, enquanto nos cobrimos com a
Preocupação do amanhã, nosso único e miserável alívio.
Num movimento impensado, vejo a lua minguante,
meu peito nu de repente se ilumina
E os artistas do jardim continuam sua dança graciosa.
Acendo um cigarro e lhe trago fumaça e luz,
Mas o cigarro também se apaga e sobra-me
Esta lua melancólica a iluminar meu peito dolorido,
A ópera, o balé e as atuações infernais desta noite.
Como que influenciada pelo místico saco de ventos,
Sinto meu corpo, nômade barco indigente,
Afastar-se da ilha de meu devir, margeando
Terras de mil línguas desconhecidas,
Enquanto esta demoníaca natureza noturna
Se alimenta das lágrimas de meu afogamento.
Enfim, caída em transe, levanto-me, abro as janelas
E entrego-me, sacerdotisa rodeada de transparências,
À minha minguante deusa, como
Oferenda a este espetáculo orgiástico,
Do qual só a manhã poderá me raptar, e isso até que
O tremulante manto da noite me cubra das sedas
Com as quais me ofertarei novamente a esta
Minguante luz, pérola misteriosa no céu.
O Toma Aí Um Poema

O Toma Aí Um Poema é um projeto potente de leitura e divulgação de poesia lusófona. Começou em 2020 como podcast, depois virou revista literária interativa e hoje é uma editora preocupada com a emancipação dos autores. É considerado um dos projetos literários mais inovadores da atualidade e soma resultados incríveis:
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