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O Livro
Lucinda, amores e outros contos é uma obra feita com o intuito de explorar várias facetas do processo de criação literária, contendo desde poemas, crônicas e contos até mesmo alguns outros textos de estilo mais fluido e de difícil classificação. Dividido em quatro partes principais, o livro se inicia com Lucinda, um conto baseado em uma história trágica retirada diretamente das fofocas dos encontros de família, no qual o leitor pode descobrir e se acostumar com a prosa do autor e seu estilo. Já a segunda parte da obra chama-se Amores, sendo uma coletânea de textos relatando vários aspectos desse sentimento através de crônicas e poemas relatando experiências tanto do próprio autor quanto histórias que por sorte chegaram até ele. A terceira parte chama-se Contos de uma Terra parada, uma série de prosas escritas durante o período de pandemia, relatando o dia a dia de um poeta encarcerado durante as várias fases desse acontecimento, desde o estranhamento inicial, o tédio, a solidão, a ansiedade e até os delírios de esperança. Por fim, a parte final chama-se Outros e contém uma miscelânia de textos diversos nos quais é possível ver uma mistura de todos os estilos e formas presentes nas outras parte. Ou seja, a obra apresenta diferentes estilos e facetas separadamente, para, na parte final, juntar todas essas formas e permitir conhecer-se o autor como um todo.
O Autor
Ian Anderson Gomes Dias é um poeta, cronista e autor. Nascido na cidade de Manhuaçu, Minas Gerais, em julho de 2002, mudou-se para estudar farmácia na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Recebeu o Certificado de Mérito Cultural da Academia Manhuaçuense de Letras pela publicação de seu primeiro livro “Ser ou ser o ser” com a Editora Toma aí um poema, e já participou de mais de 20 antologias, algumas poéticas, como Outros 500 e Infâncias, da editora Toma Aí um Poema e 1001 Poetas, da Casa Brasileira de Livros. Escreveu também prosa para antologias como Grandes Matriarcas, Assassinas e Projeto Vórtice, da editora Cartola, fez algumas participações em várias edições de diversas revistas literárias, como a revista Fruta Bruta e a revista cultural Traços, e participou das antologias de crônica e poesia do Prêmio Off Flip 2022.

Alguns Trechos do Livro
Trecho de “Lucinda”
(...) Esse é uma história análoga aos contos de fada, mas com uma pequena inversão. Diferentemente dos primeiros, que começam tristes e terminam no felizes para sempre, esse daqui começou feliz para o quase sempre, e depois disso, só desgraça. Afinal, essa história é uma tragédia, e poucas coisas são capazes de fazer alguém chorar como algo que poderia ter sido, mas não foi.
Como toda história, sabe-se lá quando essa aqui começou. Seria no nascimento da menina? Na primeira vez que seu pai e mãe tocaram os lábios, prenúncio de seu matrimônio? Ou, quem sabe, a história de Lucinda tenha começado no momento que a primeira faísca de vida surgiu nas profundezas dos oceanos da Terra primitiva. Pouco importa. Na verdade, não importa, exceto por um detalhe. Preciso começar a escrever isso daqui de algum lugar.
Meramente por um capricho, escolhi dar um vislumbre ao leitor da vida da Lucinda antes daquilo. Sadismo puro, claro, mas só se pode compreender a existência de uma tragédia ao compará-la com um momento em que tudo estava relativamente bem. Mais do que relativamente, nesse caso. Mas, cruel como sou, dei um gostinho do doce, apenas para completar com o amargor do resto. Desculpe-me se procrastino para começar. Poderia dizer que escrever é difícil, que a história é muito triste, ou algo do tipo. Mas a verdade é que eu sou assim, incapaz de ir direto ao ponto. (...)
Trecho de “Boemia”
O que inicialmente me pareceu romântico e nonchalant muito rapidamente se provou ser algo completamente diferente.
Ela tinha os olhos azuis penetrantes e cabelos loiros, sedutora tanto em sua beleza quanto em sua loucura inerente, uma certa insanidade licantrópica que se escondia por trás de seus olhos, dissociando-a em uma miríade de sereias que se alternavam, dia sim, dia não, por vezes desgraça, por outras bonança e assim por diante. Mas não para mim, pois não fui seu Ulisses. Não para mim, mas para todo o resto.
Ele era galante e boêmio, de olhos acastanhados e um sorriso insinuador, de um charme proibido e aventureiro. Talvez se esse fosse um romance de escapadas ele teria se encaixado perfeitamente, um amante às escondidas, um conquistador, um desbravador. Mas, infelizmente, a conquista era impossível, assim como era impossível às naus e caravelas desbravarem o mar que em um instante se faz calmaria e no outro tempestade. (...)
Trecho de “Estranho e Nostálgico”
É tão estranho andar pelas ruas dessa cidade depois de tanto tempo. Algo mudou. Possivelmente esse algo sou eu. Alguma coisa que eu não sei explicar me diz que essa não é mais a minha cidade. As ruas que percorri tantas vezes após a aula, nas quais corri, e caminhei e cantarolei uma música única que só eu sei, essas ruas me parecem intrinsicamente diferentes. As pessoas que vejo nas ruas não são mais as mesmas. O que aconteceu com você, cidade que um dia foi minha? O que aconteceu comigo, que um dia já me chamei de seu? Esse macabro baile de máscaras antisséptico esconde uma verdade que antes eu captava discretamente nas faces das formigas que percorrem dia após dia esse formigueiro inconstante. A pura essência que dá vida às tuas ruas tem um quê de diferente.
O que mais eu perdi em todo esse tempo? Quantos vaivéns, quantos sorvetes depois da aula, cafés na tarde de quinta-feira e paralelepípedos faltando nas ruas eu não perdi? Não reconheço mais as lojas, as sorveterias, aquele café que mudou de lugar, e isso tudo me assusta. Se a cidade que deveria ser minha mudou tanto assim, tenho medo do resto. Nada mais é o mesmo. Ou pior, nada mais é o mesmo do mesmo jeito. (...)
mergulho
tentei mais uma vez dar o mergulho, mas sem sucesso: o momento em que o frio das águas lambeu a lombada das minhas costas eu refreei. ando nessa luta com a piscina há tempos, entra, sai, mergulha até, mas nunca de uma vez, nunca sem pensar duas vezes, nunca espontâneo. quando era pequeno parecia tão fácil, águas frias, águas ardentes, todas potentes, todas potência catalisadora de uma paixão subaquática que hoje me evade em sua umidade fluida. não se engane, ainda amo essas águas, com seu aroma saudoso de cloro e seu brilho turquesa inegável, mas a coragem do púero hoje não me é tão resgatável, ao menos inicialmente. menos instinto, mais dúvida: assim é. antes eu pularia sem o menor apreço por ínfimos detalhes, já hoje, o frio se espalha em mim como uma enfermidade, uma anti-febre atômica e endotérmica a me enfiar minhocas na cabeça e dúvidas nos caprichos outrora animalescos, hoje pensantes. o pior de tudo, parece-me que apenas minhas pernas conservam ainda em si a infância, pois entram e submergem sem esforço algum. já do torso para cima é outra história, pois embora saibam do prazer que aguarda nas ondas e anseiem alívio contra o sol ardente, relutam, titubeiam, pior ainda: raciocinam quando o raciocínio não é cabido. finalmente vencida essa ânsia, finalmente imerso, enquanto me solubilizo, vem à tona a pergunta: o que há de tão medroso a se ocultar no tórax e lutar contra a vontade perpétua de imergir?
Quando universos se chocam
quando universos se chocam
há guerra
há sono
há labuta
e há a destruição mútua de ambos
ou a criação espontânea de mais um.
algo novo. algo antigo.
algo que não existe e nem deveria.
e todo esse processo é estranho,
horrivelmente desconfortável,
especialmente para alguém como eu.
sei que disse isso antes por aqui
(e com aqui quero dizer algum lugar
que nem eu sei onde é)
mas existem vários eus.
e é por isso que não mostro meus poemas
à minha tia.
quando o eu sobrinho e o eu poeta se chocam
há batalha
há derramamento de sangue
há discórdia
e há a formação de amálgamas
ou o desaparecimento em prol de outrem.
é difícil dizer quem sai vitorioso nessas brigas.
o eu mediador tem dificuldade de julgar,
o eu pacificador de intervir.
nessa dança mnemônica
ou ambos se anulam
ou raras vezes há a formação
do complexo metálico poeta-sobrinho.
e apenas nas raras vezes em que esse emerge
é que posso mostrar a minha tia
um poeminha que seja.
quando sóis se chocam
há explosão
há formação de buracos negros
há morte
e há a liberação de luz inimaginável
ou de treva impensável no espaço.
mas eu estou longe de ser um sol.
sou peixe pequeno, inseto de jardim,
lagartixa de parede.
o que acontece quando duas
lagartixas de parede se chocam?
ninguém sabe. nunca ninguém parou para
prestar atenção nesse encontro.
O Toma Aí Um Poema
O Toma Aí Um Poema é um projeto potente de leitura e divulgação de poesia lusófona. Começou em 2020 como podcast, depois virou revista literária interativa e hoje é uma editora preocupada com a emancipação dos autores. É considerado um dos projetos literários mais inovadores da atualidade e soma resultados incríveis:
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