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O Livro
Numa abordagem psicanalítica e filosófica, Na Carne Absoluta explora como a formação identitária é determinada por fatores biológicos, políticos e socioculturais, considerando a influência do inconsciente pessoal e coletivo na construção do "eu", onde a noção de individualidade é intrinsecamente moldada pelo ambiente externo.
O título evoca a dualidade da natureza humana, atribuindo à carne tudo aquilo que nos é transmitido por herança. O termo Absoluto faz alusão à subjetividade na constituição do ser e ao conceito de identidade criado a partir do contato com a própria realidade interna. Escrita em linguagem poética e no formato de autoanálise, a obra, dividida entre “fêmea” e “mulher”, resgata as experiências da autora desde a infância até a vida adulta.
A primeira parte, Fêmea, apresenta um recorte historiográfico do Brasil, abordando os processos colonialistas e escravocratas e suas implicações psicológicas. A desigualdade social e racial, o impacto da pobreza, o complexo de inferioridade e o “vira-latismo” intelectual, assim como as relações hierárquicas de gênero e os estereótipos associados à mulher são trabalhados pelo impacto no psiquismo, na condição de mulher negra brasileira, refletindo no seu desenvolvimento enquanto indivíduo. O eu-lírico relata como esses fatores atuaram ao serem incorporados em seu inconsciente, desencadeando conflitos emocionais, traumas, abusos e alienação.
Cura e liberdade dão a tônica do componente intitulado Mulher. O processo de autoconhecimento ocorre pela quebra de complexos e crenças internalizadas, ao acessar memórias genuínas e descobrir aspectos reais da personalidade. Sua autonomia é alcançada ao tomar consciência de si, reconhecendo sua expressão criativa no amor, na Arte, na escrita e, principalmente, no ato de pensar.
O objetivo da obra é despertar o olhar do leitor para a própria realidade interna, levando-o a observar até que ponto o que nomeia “eu” realmente corresponde à sua singularidade e características inerentes. A obra tece reflexões sobre o sentido concreto e abstrato da existência, induzindo à autopercepção e à observação das próprias verdades, diferenciando-as do que foi agregado de maneira involuntária. No contexto social atual, repleto de estímulos e informações, é essencial ponderar sobre o que e quanto realmente conhecemos de nós mesmos, para não sermos diluídos em meio às demandas exteriores.
Na Carne Absoluta é dedicada para aqueles que desejam realizar a sua própria jornada através do caminho do autoconhecimento.
A Autora
Ana Agnolo é formada em Licenciatura em Artes Visuais pela Universidade Estadual do Paraná - Escola de Música e Belas Artes do Paraná (UNESPAR/EMBAP). Artista em essência e escritora estreante, atua como professora de Inglês pelo ensino privado e na Educação Infantil. Fascinada pelo funcionamento do ser humano e suas formas de expressão, descobriu na escrita um instrumento de autoconhecimento logo na adolescência, e, desde então, manteve uma relação de pesquisa e aprofundamento autônomo nas áreas de psicologia e psicanálise.

Alguns Trechos do Livro
Trecho extraído da PARTE I - A Fêmea e as Heranças
HEREDITARIEDADE
Nunca esperei receber coisa alguma de herança
nenhum antepassado meu adquiriu patrimônio
tudo o que eu quiser alcançar
será exclusivamente conquistado por mim
se assim eu fizer por merecer.
Embora eu não tenha visto sequer um real, recebi legados absurdamente grandes.
Minha linguagem genética se move
em protesto ancestral
tem dor indígena, violentada
pelo colonizador da terra, da carne e da cabeça.
Filha da nação canarinha, violada
do meu povo usurparam
recursos e riquezas
mas sobretudo, liberdade e conhecimento
foram anos e anos de desuso intelectual
sou descendente de trabalho braçal.
Minha pele de cor já sabe de cor
que está sempre sob veredito
trago repertório denegrido
em meu próprio idioma
preciso ser esclarecido.
Na terra em que nasci
minha árvore genealógica seca
se as suas raízes não transportarem
o sangue de nobres
europeus.
mulher
nativa
latino-americana
é subgente
desprovida de alma e mente.
Minha avó materna foi analfabeta.
Talvez com a ajuda de minha mãe, ela pudesse assinar o próprio nome.
Se é que um nome existiu pra ela.
Para que nomear uma criatura?
Nas suas tradições de preta-velha,
adorou seus santos e cultivou seus rituais.
Pode uma selvagem querer ter fé?
Sua crença e intenção nunca lhe pertenceram.
Minha mãe costuma dizer que minha avó “não tinha boca para nada”.
Desde quando bicho tem opinião?
O seu silêncio ecoou por gerações
cada palavra não dita viajou através dos meus genes e me atravessa
repousando na ponta dos meus dedos.
Enquanto as escrevo minha avó sacia a sede
bebendo seus verbos
nas minhas lágrimas.
✒️
Trecho extraído da PARTE II - A Mulher e a Identidade
ESTREIA
Na vida inaugurada, meu primeiro respiro
é na Palavra.
A comunicação conduz
um ímpeto antigo de existência
tem coisas que precisam sair
verbalizar
nesse processo deciframos os sentimentos
aquilo que está codificado
na nossa privacidade.
nem de poucas nem de meias nem de muitas
quero ser de palavras exatas
palavra exata não carece nem excede
confessa o que é vital.
Sei que sou porque me expresso
nas inscrições breves desta minha passagem.
Falar de si requer coragem
ao se despir das máscaras
e acessar narrativas profundas da psique
quem fala de si, não fala só de si
ao dialogar com as vivências antecedentes
que de alguma forma continuam vigentes
quem fala de si
injeta ânimo nas veias dos que virão.
Quem tem coragem pra falar de si
é quem verdadeiramente é.
Eu me comunico é com as mãos
no toque sobre outras peles
tateando cada poro
converso com a minha menina
ao guiar canetas coloridas por desenhos desprovidos de ambição
discorro sobre cura
dentre o movimento dos meus pés
bailando,
liberando emoções.
Na linguagem posso ser ímpar
entre as trocas de palavras
na pluralidade das ideias
nessa dinâmica
reconheço a minha presença
e experimento a vibração
do meu eu ecoando nos pares.
Intimidade
Escrever é um ato explícitoque beira o obsceno.
Ao abrirem a porta do meu quarto,
encontraram sobre a cama
três personagens
numa orgia sublime
que de tão envolvidos pareciam um só:
Eu, caneta e papel e a Verdade
totalmente exposta.
Entre palavras eu fico nua.
O Toma Aí Um Poema

O Toma Aí Um Poema é um projeto potente de leitura e divulgação de poesia lusófona. Começou em 2020 como podcast, depois virou revista literária interativa e hoje é uma editora preocupada com a emancipação dos autores. É considerado um dos projetos literários mais inovadores da atualidade e soma resultados incríveis:
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