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O Livro
O que é oráculo? Uma resposta? Linha traçada no não saber? Uma pergunta? Encruzilhada que se abre? Experiência de produção de novos enigmas? Linguagem poética, estética, polı́tica?
Oráculo na língua é um livro para sentir em voz alta.
A Autora
FaetusaTirzah, 1974. Vive e trabalha em Curitiba. Artista visual, astróloga,taróloga e escritora. Mestranda em ArtesVisuais, na linha de Processos contemporâneos pela Universidade Estadual de Santa Catarina; especialista em História daArte Moderna e Contemporânea pela Escola de Música e BelasArtes do Paraná; graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Estadual de Londrina. Pesquisa o oracular em processos artísticos. É autora dos livros Lunação: efemérides, experimentos oraculares, sonhos, notas de caso e Horoscopular.

Alguns Trechos do Livro
1.
A lua goteja. Ninguém vê. Enche o tanque. Inunda a lavanderia. Êxtase dos seres
delirantes e úmidos. Segue para a cozinha com seu corpo-meio-lesma. Deixa rastros
pelos degraus, prendedores de roupa, um pano de prato, sabão, bucha, pedaços de
outras coisas, baldes. Escorre sobre as panelas. Feijão aguado pelas lágrimas. Talvez
o íntimo esteja mofado, assim como as toalhas no armário. Esquece que há lá fora um
sol em áries. Poderia sentir o astro. Mas esquece. Esquece a comida que transborda e
entope a boca do fogão. Agora transborda. Derrama o cansaço no sofá. Liga a tv,
desliga a si mesma. Só pelo prazer de desligar. Só. Finaliza o dia. Renuncia. Acolhe
seus sentimentos densos mesmo sem poder contê-los. Não há como afogar as
mágoas. Elas já estão afogadas e frias.
🔮
2.
anúbis, quanto pesa o coração sincero?
🔮
3.
Escrever saturno em peixes é uma construção lenta, coluna a coluna d’água de
tamanho, escuridãoepressão. Coisa resistentefeitosubmarinoque submerge láonde
“bolas de aço são esmagadas como se fossem feitas de gel”. Dizem ser mais fácil
conhecer o espaço do que explorar os oceanos, por um lado sim, por outro a pesca
industrial de arrasto e o processo de deserti`icação do fundo do mar. Amaldiçoadas
sejam as naus atravessando limites incalculáveis. Háuma sombra imensa rondando a
embarcação. Há uma sede do tamanho da sombra lı́quida. Dor marı́tima no peito,
sensação humana de naufrágio. Toda a responsabilidade sobre esse misterioso
território que nutre mundos de todas as gentes. Todo o prazo que temos. Dizem que
uma mulher de corpo seco coleta conchas noturnas na beira da praia, num tempo
imaginado para caminharem seguras. Suas andanças lhe trouxeram calos. Seu frio na
espinha é o das coisas escondidas, dos seres abissais que só podem ser vistos em
barrigas de baleias mortas. Seu frio na espinha é o da âncora corroı́da, da morte
mutável ora âncora, ora foice, ora a diluição e transformação das substâncias. Os
cabelos da mulher são emaranhados cinzas. Sopradas em uma concha seca como seu
corpo,eespalhadasnaságuasdodesejoemedodelibertação. Fazpartedoritocolocar
a concha nos ouvidos. O som espiralado, os dentes salgados como noventa e sete por
cento de toda a água da terra. Mulher gigante. Criatura de ossos e corais. Abaixa a
cabeça como quem leva o olhar e o destino ao chão, que é a areia, esse esmagado de
pedras ao longo de milhões anos.
🔮
O Toma Aí Um Poema

O Toma Aí Um Poema é um projeto potente de leitura e divulgação de poesia lusófona. Começou em 2020 como podcast, depois virou revista literária interativa e hoje é uma editora preocupada com a emancipação dos autores. É considerado um dos projetos literários mais inovadores da atualidade e soma resultados incríveis:
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