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outubro de 2024.
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conheça dois textos da obra:
BOSQUE DAS LETRAS
Desconfio que o meu primeiro contato com a palavra poética tenha se dado durante as aulas de matemática do primário. A professora colocava no quadro as palavras “arme e efetue” – e eu, que tinha uma vaga ideia do que fosse armar qualquer coisa e desconhecia por completo o que no mundo se prestasse a ser efeito, efetuído, efetuado, sabia que diante de um comando daqueles – “armiefetui” – o mais prudente era empilhar os algarismos todos e calcular o resultado antes que a professora se aproximasse. Sonhamos, os tímidos todos, com a invisibilidade.
E eu fazia as contas todas, e gostava de fazê-las, e as continuei fazendo com prazer – sem saber talvez que ali as estivesse efetuando – até uns treze ou catorze anos, quando as abandonei para sempre. Apenas então, anumérico, falto de algarismos, foi que me embrenhei no bosque de armefetuias, ermafutaias, imitafoias. Hão de encontrar-me ali, se espreitarem bem, atrás daquele arbusto.
ROSAMARIA
Caí no erro (ou na tentação) de clicar numa foto de Rosamaria, a jogadora de vôlei, no Instagram. E só o que me aparece agora é Rosamaria. Rosamaria entre duas colegas de equipe, com carinha de “nenê”, segundo a legenda. Rosamaria num vídeo, entrando em quadra apenas para sacar. Rosamaria sorrindo o sorriso de uma menina que um dia pretendi – com uma hashtag embaixo. E fotos em que Rosamaria mal se reconhece por debaixo de tanto filtro. “Ainda que eu nunca te conheça”, registra um dos perfis, “preciso que você saiba o quanto me faz bem”. Você me faz bem, Rosamaria! E Rosamaria surge outra vez, segurando um troféu, alongando as pernas, ai, as pernas de Rosamaria! Rosamaria paquerando a câmera, Rosamaria com o dedinho na boca. A bunda de Rosamaria, indiferente à miséria dos homens. Ave, Rosamaria dos depiladíssimos sovacos! E Rosamaria reaparece mordiscando um escapulário – trincando Deus como um caju. Rosamaria, Rosamaria, sereis doravante meu evangelho – palavra da salvação. Por detrás da geometria das redes, algorítmica e bela, ressurgireis para amansar os fantasmas da existência. E sobre vós derramarei, dia após dia, os corações ao alcance de meus dedos pecadores.
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sobre o autor:

Daniel Serrano [1988] é natural de Campinas, interior de São Paulo. Mestre em Teoria e História Literária pela Unicamp, atua há mais de uma década como professor de português para o ensino básico.
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previsão orçamentária:

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