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O Livro
Relatos de sal e zimbro é um romance que é um diário, memória, ensaio. É tudo verdade? A protagonista traz do passado experiências, enquanto olha entre entusiasmo e medo para o futuro.
A Autora
Marília Gonçalves nasceu e vive em São Paulo. Cursou Direito mas fugiu do curso antes de se tornar bacharel. A vida foi correndo, a literatura sempre consigo, sempre na sombra, à espera do seu tempo. Cursou o CLIPE em 2015, participou de coletivos literários e tem textos publicados na Fenix, na terra do Fogo e na revista Moreia.

Alguns Trechos do Livro
I -
Ouço notícias bárbaras que alimentam meu espanto diário. O que nos mantém atentos e conscientes de nossas vidas? Não é o pensamento; ah não, se assim fosse saberia dizer como foi que saí de casa, saberia se dei uma ou duas voltas na fechadura e se carreguei a bolsa no ombro direito ou esquerdo e qual era a música que tocava quando liguei o rádio e de como essa música era minha velha conhecida porque saí cantarolando uma letra que sabia de cor, mas não me lembro agora o quê ou como.
Assim foi o dia. Cheguei aonde ia, voltei para onde devia, mantive-me ocupada com o necessário. Ainda hoje soube, de alguma maneira: uma velha tailandesa, tentando chegar à sua casa, ficou perdida por mais de vinte e cinco anos. Lá estava ela, sacolas ocupando os braços, os véus protegendo cabelos e parte do rosto, os pensamentos na comida a ser feita, os filhos que chegariam com fome. Um olhar desviado um milímetro e de repente estava no lugar de sua não existência. Como arcos traçados sucessivos, vindos de um compasso mal estacionado, os caminhos vão e vem e podem não se encontrar jamais. A pobre velha, cujos olhos sabiam o nome das coisas vizinhas, foi sequestrada por terras estrangeiras, olhos indagadores. Apequenou-se, emudeceu. Uma semente de medo passeia pelas minhas artérias, nublando o dia. Haverá o dia do esquecimento, do lapso, da música interrompida. Haverá o ônibus equivocado, despejando-nos pelo caminho.
Quem poderemos ser, quando nada soubermos sobre quem somos?
II -
Foi rápido. E um alívio. Joguei fora a garrafinha de refrigerante que tinha meu nome no rótulo. Porque sim. Porque não faço a menor ideia do porquê eu mantinha a tal garrafa. Odeio o refrigerante e o que ele significa. Não fazia mesmo o menor sentido. Prometi a mim mesma que tiraria o feriado para ler e escrever, nada mais, mas fui na cozinha buscar um café e veio forte uma coceira de arrumar o vaso com as flores. Abri a cortina pra melhorar a luz e gritou a urgência de molhar as plantas.
Escrevi um parágrafo, reli, apaguei, um lixo! Fui lavar o Allstar que estava de molho depois de uma caminhada no barro, outro comichão repentino. Resolvi lavar o cadarço dentro de um saco plástico no microondas, técnica maluca que a amiga ensinou. Botei fogo no microondas.
Pronto, agora vamos escrever. Porque a vida cotidiana, essa sim, está cheia de perigos.
III -
Encasquetei de fazer uma dieta cheia de regras. Um dia pode tudo, outro dia nada pode. Segunda pode chuchu, que não pode na quarta. E pode escarola, alface, agrião. Mas não pode azeite, que só pode na sexta. Na quarta seria melhor não viver, prender a respiração até quinta, quando se pode flertar com uma ameixa. Acho que os calores pioraram
O Toma Aí Um Poema

O Toma Aí Um Poema é um projeto potente de leitura e divulgação de poesia lusófona. Começou em 2020 como podcast, depois virou revista literária interativa e hoje é uma editora preocupada com a emancipação dos autores. É considerado um dos projetos literários mais inovadores da atualidade e soma resultados incríveis:
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Orçamento - 50 exemplares (2600 Reais)
Impressão Gráfica | 800,00
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