Conheça a campanha

Na véspera de decisões que moldam o futuro do país, pessoas negras e indígenas que ousam disputar a política institucional enfrentam uma sobrecarga visível e invisível: violências políticas étnico-raciais, ataques virtuais, solidão e jornadas exaustivas. Em um cenário onde a democracia ainda é marcada por profundas desigualdades, essas candidaturas carregam, além das agendas políticas, o peso de atravessar estruturas historicamente excludentes.
Os dados mais recentes seguem comprovando que essa sobrecarga se trata de uma realidade mensurável. Entre as 62 ações penais eleitorais por violência política de gênero e raça mapeadas entre 2021 e 2025, 33% das vítimas são pessoas negras, enquanto apenas 1% são indígenas e 65% são brancas. Um dado que precisa ser lido à luz da sub-representação histórica de candidaturas negras e, sobretudo, indígenas, o que indica maior exposição proporcional ao risco para quem rompe as barreiras de acesso à política institucional. Além disso, sabemos que a grande maioria dos casos de violência não são denunciados.

Precisamos considerar a subnotificação também para pensar o ambiente digital, onde parte significativa das disputas e ataques se desloca e a desigualdade se torna ainda mais evidente: foram registrados 53 casos de violência política digital contra pessoas pretas, 14 contra pessoas pardas e 8 contra pessoas brancas no período de junho de 2021 a julho de 2025. Ou seja, a maior parte das agressões online recai sobre candidaturas negras, revelando um padrão racial dos ataques e a tentativa sistemática de silenciar vozes que tensionam estruturas de poder.
Sendo esta ainda a realidade que estamos inseridos, quando o cuidado não acompanha este processo, o custo é alto: adoecimento, possíveis desistências e interrupção de trajetórias políticas comprometidas com direitos, territórios e justiça social, trajetórias essas que seguem sendo empurradas para a periferia da política. Garantir suporte emocional qualificado não pode ser colocado em mais um lugar de privilégio, pois é uma condição concreta para a permanência e segurança de lideranças que ampliam a representação democrática.

É nesse chão que nasce a campanha “Sem cuidado não há democracia”, iniciativa do GIPA Brasil para oferecer escuta ética, antirracista e politicamente situada durante o ciclo eleitoral de 2026. A proposta é criar espaços de pausa, escuta e elaboração para pessoas negras e/ou indígenas candidatas ou diretamente envolvidas em campanhas de pessoas negras e/ou indígenas. Nosso foco reside em fortalecer essas candidaturas.
Por meio de plantões psicológicos remotos realizados no período pré-eleitoral, entre setembro e outubro de 2026, a iniciativa oferece acolhimento diante das pressões do processo político e das violências simbólicas e materiais que atravessam essas pessoas. Cada encontro é um espaço de respiro e fortalecimento em meio à intensidade da disputa, permitindo reorganização emocional e possibilidade de continuidade da atuação.

O Grupo de Iniciativa Psi Antirracista (GIPA Brasil) nasce da compreensão de que a disputa por espaços de poder atravessa significativamente o campo da saúde mental. Em um país onde candidaturas negras e indígenas enfrentam violências políticas, violências étnico-raciais, desigualdades socioeconômicas e os impactos crescentes das crises climáticas sobre seus territórios, o GIPA atua onde essas pressões se encontram: na periferia da política. Somos pessoas psicólogas, psicanalistas e pesquisadoras que trabalham a partir de uma clínica do cuidado, articulando escuta qualificada, justiça racial e étnica e compromisso com os princípios de nossa proposta enquanto GIPA.

Nossa atuação integra três frentes: 1. atendimentos clínicos para candidaturas e equipes, 2. produção de pesquisas e ações educativas sobre saúde mental e relações étnico-raciais, e 3. incidência política em agendas de direitos humanos e sustentabilidade socioambiental. Acreditamos que saúde mental, democracia e proteção territorial precisam caminhar juntas. E que cuidar de quem disputa o poder é condição para que novas agendas de justiça, equidade e sustentabilidade possam existir.

Desde 2022, o GIPA Brasil tem apoiado pessoas negras e indígenas em contextos de alta pressão política, oferecendo escuta ética e estratégias de sustentação coletiva em cuidado. A experiência acumulada nesses anos mostra que o processo democratico falhou e continua falhando com populações negras e indígenas. Democratização real passa, necessariamente, por construção de estratégias de equidade étnico-raciais. Na disputa político-institucional, isso significa a urgência de invenção de condições para que todas as pessoas possam disputar de igual para igual.
Nesse sentido, cada atendimento realizado contribui para reduzir desistências, fortalecer a permanência e ampliar a capacidade de atuação de lideranças comprometidas com justiça étnico-racial, democracia e sustentabilidade. Quando essas candidaturas permanecem, ganham força propostas que defendem territórios, enfrentam desigualdades históricas e respondem de forma inovadora aos desafios sociais e climáticos do país.

É evidente o impacto dessas candidaturas para o fortalecimento e defesa do processo democrático, o que se acentua quando consideramos que as que alcançam o sucesso eleitoral ainda sejam poucas. Isso nos faz perceber o tamanho do impacto que uma oportunidade pode ter. Precisamos, muitas vezes, só de uma. E, nessa, fazemos a diferença.
Aqui, estamos nessa mesma condição. O modelo dessa campanha é tudo ou nada: os recursos só são liberados se atingirmos a meta total. Cada apoio é decisivo para que o cuidado aconteça.
Ao contribuir, você fortalece uma associação que tem como fundamento trabalhar pela saúde mental de candidaturas negras e indígenas e, também, ajuda a destravar um investimento coletivo maior em democracia e justiça étnico-racial. Esta é uma campanha no modelo matchfunding: para cada R$ 1 doado, o projeto recebe mais R$ 2 de apoio parceiro que, nesse projeto, é a Fundação Tide Setúbal por meio do edital Territórios Clínicos, do qual o GIPA fez parte. Isso significa que sua contribuição tem impacto multiplicado: uma doação de R$ 50 se transforma em R$ 150 para viabilizar atendimentos, coordenação clínica e a estrutura do plantão psi.

Apoiar esta campanha é afirmar que saúde mental é parte essencial da infraestrutura democrática, que justiça étnico-racial e participação política caminham juntas, e que proteger quem está na linha de frente da transformação social é proteger o futuro do país. No GIPA Brasil, acreditamos no cuidado como posicionamento radical e estratégia de permanência: escutar é sustentar, sustentar é permitir que novas agendas floresçam, que territórios sejam defendidos e que outras formas de fazer política se consolidem. Contribua, compartilhe, caminhe conosco. Porque sem democracia racial, e sem quem a constrói, não há democracia.


