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O Livro
Começo a apresentação de trombando em jeitos um, terminarei outro. Essa afirmação é a ideia que povoa as páginas da obra. Também não é assim com a leitora e com o leitor? Um eterno fluxo de aproximações, repelências e simbioses de quem escreve, de quem lê, de quem vive o mundo afirmando sua humanidade em sociedade.
Como se o livro fosse um extrato, um recorte da materialidade para ilustrar o eterno movimento do devir e das transformações. A relação do escritor com o leitor como lente das relações entre cada pessoa com outra e com o próprio mundo.
Esse tal mobilismo que Heráclito tanto revelou, ninguém atravessa a mesma pessoa duas vezes, porque esta será outra e mais outra em todos os outros atravessamentos e vice-versa. Uma composição de tudo o que deixamos em outros e do que recebemos, formando a materialidade do que é.
Os versos do livro ocupam o lugar da transformação, como em as luas de júpiter: sabemos de nada ao nosso respeito trombando em jeitos sempre sou mundo às vezes sou outros nunca sou eu. Ideias que reafirmam que as mudanças que nos sublinham são constantes, contínuas e o esforço é para que esses versos possam capturar o poético que existe nessas simbioses, aquele que nos tornamos, imediata ou posteriormente, a partir das interrelações das pessoas e circunstâncias que nos impactam.
Também uma tentativa de conexão entre a atmosfera transformadora das páginas com a reflexão da leitora, ou leitor, ao passo que há intenção desses versos de conectarem quem os experimenta também com suas próprias transformações, seja na lembrança de alguma experiência subjetiva provocada pela leitura, ou pela nova pessoa que surge a partir do afeto que os trombadores poemas provocam à medida em que são lidos. Ninguém lê o mesmo livro duas vezes, suas camadas se revelam a cada nova investida.
Logo, cada novo contato que temos com as pessoas que nos atravessam representa um novo parto, nascimento de alguém que já não é mais o mesmo, carrega em si o impacto de outra existência que não a sua e o transcende para afirmar um jeito de existir novo, que também se transformará à medida em que os encontros, ou desencontros, se perpetuem. Trombando em jeitos se esforça para capturar o poético imanente nessa relação e compreender aquilo que habita tanto a materialidade, quanto o metafísico dessas transformações.

O Autor
Alex Moura, entusiasta carioca, se forja para o mundo a partir do entusiasmo que carrega pelas questões das humanidades, o que o levou a se dedicar às ciências humanas na ação de um professor de história. O atravessamento provocado pela poesia o transforma em mestre em ensino de história com dissertação sobre o ensino de história através da linguagem poética. Estreia na poesia em 2017 com o livro Entre o quando e o quase. Crescido no subúrbio do Rio, radicado atualmente em Niterói, habita o lugar da simbiose entre o partideiro e o pós-punk. Adora salaminho.

Alguns Poemas do Livro
mudança
fazer dobras
no tempo
até se deslocar
para mais perto
de tudo
que ainda será
do ponto
de onde estou
entrego as chaves
do que passou
no ponto
onde vou chegar
recolho as chaves
do que virá
tantos que já fui
em tantos lugares
que já estive
que sou o tanto
de possibilidades
de quem vive
não sei
onde começo
e nem conheço
o meu fim
há muito mais gente
do que eu em mim.
*
desordem
a imagem do espelho
vence o espaço
e chega a tempo
à imagem de fora
o que há nesse espaço
e nesse tempo
entre a imagem de fora
e a de dentro
são todas as possibilidades
de mim
são todos os meus nãos
no paralelo entre
os meus dois sins
com tanta
possibilidade pra ver
transitando
entre o ser e o não-ser
soquei o espelho
e voou eu pra tudo que é lado.
*
domesticamos o tempo
os dias têm personalidade
hoje terça-feira tem pegada
de segunda marcha
já houve o arranque
em velocidade baixa
o percurso temporal dispara
enquanto cortamos a estrada
diz para enquanto cortamos
os pulsos na segunda metade
de uma quinta-feira
besteira! fomos nós quem
batizamos os dias e fatiamos
o tempo
a noite não é antes
e nem depois só é escura
as voltas que o ponteiro dá
são forjadas
girar no sentido horário
sempre me pareceu arbitrário
leva o mesmo tempo
girar ao contrário
solstício equinócio eclipse lunar
mais do que trazer um novo dia
o sol se encarrega de clarear
nunca houve um sétimo dia
para deus descansar.
*
todo dia
sapatos de percorrer rotina
calçam pés no chão
pavimentos decorados
viciados
sempre com a mesma dose de dia
experiente de mim
não desprezo experiências
que me enchem de mundo
à noite volto pra casa
um pouco mais e menos do que era
algumas esquinas dobraram
em minha direção
outras não
e assim se fez tempo
naquilo que batizamos vida
amanhã?
saio de novo
e volto aquele que não fui ainda.
*
último solo de ian curtis
gosto dos dias
que conseguimos
segurar o cinza que está no ar
não me agrada saber
que o sol brilha
para além das nuvens
nos dias de céu trancado
roubei a chave de pedro
e me tranquei
do lado de fora do céu
o sol que brilhe pra lá
hoje só reconheço rumores
das alegrias que tentei preservar
mais cerveja ansiedade
e cigarro em pista de bar
a epilepsia de curtis
me fez dançar
todos os meus fantasmas
povoam as margens
do espaço que ocupo no mundo
mas só tomei consciência
depois que a fumaça
modelou um vulto
daquilo que sempre esteve oculto
hoje
danço brinco
choro reclamo
pulo e resmungo com eles
sei seus nomes um por um
quando estou só comigo
eles gritam eu apareço
e distante do que forjo ser
me reconheço
sou quem não sabem
um pouco menos
de qualquer coisa
e um pouco mais.
os dias cinzas
sempre me agradaram
como nenhum outro é capaz.
O Toma Aí Um Poema

O Toma Aí Um Poema é um projeto potente de leitura e divulgação de poesia lusófona. Começou em 2020 como podcast, depois virou revista literária interativa e hoje é uma editora preocupada com a emancipação dos autores. É considerado um dos projetos literários mais inovadores da atualidade e soma resultados incríveis:
1k+ autores lidos | 1k+ poetas publicados | 1 milhão de players
Orçamento - 50 exemplares (2600 Reais)
Impressão Gráfica | 800,00
Material de envio e fretes | 600,00
Serviços Editoriais | 700,00
Registros, solicitações, taxas | 400,00
Margem de segurança | 100,00
Contato
@tomaaiumpoema